Por Marlos Ferreira
Alagoas tem potencial para crescer, gerar empregos e oferecer melhores condições de vida à sua população. Mas esse desenvolvimento precisa chegar também ao interior, às comunidades rurais e aos municípios que dependem dos serviços públicos para avançar.
O Agreste alagoano tem uma posição estratégica nesse processo. Arapiraca, por exemplo, é um importante centro regional de comércio, serviços e produção agrícola. Segundo o IBGE, o município tinha 234.696 habitantes no Censo de 2022. Já a Prefeitura de Arapiraca destaca a importância da agricultura familiar e da produção de hortaliças para a economia local. [1][2]
Esses dados mostram que existe uma base econômica sobre a qual podemos trabalhar. A questão é: como transformar esse potencial em mais renda, oportunidades e qualidade de vida?
Agricultura familiar: quem produz precisa conseguir vender
Uma das prioridades para o Agreste deve ser fortalecer os pequenos produtores rurais. Não basta incentivar o plantio; é preciso ajudar o agricultor a produzir com eficiência, transportar seus produtos e encontrar compradores.
Defendo uma política de fortalecimento da agricultura familiar que amplie o acesso à assistência técnica, à irrigação eficiente, ao crédito adequado e à organização de cooperativas e associações.
Também é importante facilitar o acesso dos produtores aos mercados institucionais, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar, respeitando as regras de compra pública.
A proposta é objetiva: reunir municípios, órgãos estaduais, instituições federais e representantes dos agricultores para identificar os principais obstáculos à produção e à comercialização.
Isso exige planejamento e recursos. Máquinas, assistência técnica, sistemas de irrigação e estradas rurais têm custos de implantação e manutenção. Por isso, cada projeto precisa apresentar orçamento, metas, responsáveis e resultados esperados.
O dinheiro público deve ajudar o produtor a conquistar autonomia, e não criar dependência política.
Água e saneamento: desenvolvimento também significa dignidade
Outro desafio é garantir água de qualidade, esgotamento sanitário e destinação adequada dos resíduos.
O Plano Plurianual de Alagoas 2024–2027, utilizando dados do antigo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento referentes a 2021, registrou atendimento por rede de água de 74,2% da população alagoana e atendimento por rede de esgoto de apenas 17,9%. Esses números são históricos, não uma fotografia da situação atual, mas mostram a dimensão do desafio que precisa ser acompanhado com dados mais recentes. [3]
O caminho é cobrar a atualização dos indicadores município por município e estabelecer metas para ampliar o abastecimento, reduzir perdas de água, expandir o esgotamento sanitário e melhorar a coleta de resíduos.
No Agreste, também é necessário planejar a segurança hídrica para os períodos de estiagem, com soluções adequadas à realidade de cada comunidade.
Essas ações custam caro e dependem de estudos técnicos, projetos de engenharia, licenciamento e fontes de financiamento. Mas adiar indefinidamente esse planejamento também tem consequências para a saúde pública, o meio ambiente e a atividade econômica.
A cobrança deve ser acompanhada de transparência: quanto será investido, quais localidades serão atendidas e quando a população poderá verificar os resultados?
Emprego e renda: o jovem precisa ter oportunidade de ficar
Não podemos falar em desenvolvimento regional sem discutir o futuro dos jovens.
Muitos precisam buscar oportunidades em outras cidades porque não encontram trabalho compatível com sua formação ou suas expectativas. Para enfrentar esse problema, precisamos aproximar educação profissional, empresas, comércio, serviços, agricultura e tecnologia.
Uma agenda para o Agreste pode incluir cursos técnicos alinhados às necessidades das empresas locais, qualificação digital, apoio à formalização de pequenos negócios e melhoria da infraestrutura que facilita o transporte de mercadorias.
Também é necessário avaliar os resultados das políticas existentes antes de criar novos programas. Uma iniciativa pública precisa demonstrar quantas pessoas foram qualificadas, quantas conseguiram emprego e quanto custou cada resultado.
Incentivos econômicos podem ajudar a atrair investimentos, mas precisam ter critérios transparentes e contrapartidas verificáveis. Não faz sentido conceder benefícios sem acompanhar se eles geraram empregos, renda e atividade econômica.
Infraestrutura regional: pensar além dos limites de cada município
O desenvolvimento do Agreste depende de uma visão regional.
Estradas, transporte, conectividade, mercados, equipamentos de saúde e serviços especializados precisam ser planejados considerando a circulação de pessoas entre Arapiraca e os municípios vizinhos.
Uma estrada rural recuperada pode facilitar o escoamento da produção. Uma ligação viária bem planejada pode reduzir custos logísticos. Uma estrutura regional de atendimento pode evitar deslocamentos desnecessários para serviços especializados.
Mas cada intervenção precisa partir de um diagnóstico: quais trechos são prioritários, quantas pessoas serão beneficiadas, qual é o custo estimado e quem será responsável pela execução e manutenção?
É assim que uma reivindicação legítima se transforma em projeto viável.
E o que os senadores de Alagoas devem fazer?
O Senado Federal não administra diretamente as prefeituras nem substitui o Governo de Alagoas. Sua função envolve legislar, participar das decisões orçamentárias do Congresso e fiscalizar a atuação do Executivo federal, além de exercer competências constitucionais próprias. [4]
Por isso, a cobrança aos senadores precisa ser objetiva.
Primeiro, defender recursos federais para projetos estruturantes, com critérios técnicos e transparência na aplicação dos recursos.
Segundo, acompanhar programas federais de saneamento, abastecimento de água, agricultura, infraestrutura e qualificação profissional que possam beneficiar Alagoas.
Terceiro, fiscalizar a execução dos recursos destinados ao estado, verificando se o dinheiro liberado se transformou em obras concluídas e serviços funcionando.
Quarto, manter diálogo institucional com prefeitos, Governo do Estado, associações comunitárias, produtores e representantes da sociedade civil.
Quinto, prestar contas à população, divulgando os recursos articulados, os projetos em andamento, os prazos e os resultados alcançados.
Não basta anunciar milhões de reais em investimentos. É necessário distinguir o valor anunciado do recurso efetivamente autorizado, empenhado, pago e convertido em benefício para a população.
Uma agenda prática para os próximos 100 dias
Proponho que representantes políticos, entidades empresariais, associações rurais e organizações comunitárias construam uma agenda regional com cinco compromissos:
1. Diagnóstico: levantar os principais gargalos de água, saneamento, estradas rurais, produção agrícola e qualificação profissional.
2. Prioridades: selecionar projetos com maior impacto social e econômico, utilizando critérios públicos.
3. Orçamento: identificar o custo estimado, as fontes possíveis de financiamento e as responsabilidades de cada ente público.
4. Cronograma: estabelecer prazos e indicadores para acompanhar a execução.
5. Prestação de contas: divulgar periodicamente o que avançou, o que está atrasado e quais obstáculos precisam ser resolvidos.
Os primeiros 100 dias devem servir para organizar o diagnóstico e pactuar as prioridades, não para prometer que grandes obras estarão prontas nesse período.
Desenvolvimento sem partidarismo cego
A política precisa de princípios, mas também precisa de resultados.
É legítimo defender responsabilidade fiscal, incentivo ao empreendedorismo, valorização da família, fortalecimento da agricultura e respeito às instituições. Da mesma forma, é necessário reconhecer que obras e políticas públicas dependem de planejamento, recursos, capacidade técnica e cooperação entre diferentes níveis de governo.
Nenhum partido possui o monopólio das boas ideias. Toda proposta deve ser avaliada pelo que pretende resolver, pelo que custa, pela sua viabilidade e pelos benefícios que entrega.
O cidadão não deve ser tratado apenas como eleitor em época de campanha. Deve ser respeitado como alguém que paga impostos, trabalha, sustenta a família e tem o direito de cobrar resultados.
Alagoas e o Agreste não precisam de uma disputa permanente entre grupos políticos. Precisam de representantes preparados para negociar recursos, fiscalizar sua aplicação e defender projetos que melhorem a vida das pessoas.
Minha posição é simples: menos promessa sem planejamento, mais projeto com orçamento, prazo e prestação de contas.
Porque o desenvolvimento de Alagoas não pode ficar restrito aos discursos. Precisa chegar à mesa do agricultor, ao comércio do bairro, à oportunidade do jovem, à água que chega às casas e aos serviços que a população utiliza todos os dias.
É isso que devemos cobrar de quem nos representa: compromisso com o estado, responsabilidade com o dinheiro público e resultados que possam ser comprovados.
Marlos Ferreira
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